O iDeclatra na Cultura desta quinta-feira (15) debate a construção de uma narrativa. A decisão do ministro Marco Aurélio a respeito da execução penal, a pressão para o congresso aprovar a prisão em segunda instância e a prisão do ex-presidente Lula estão interligados pelo noticiário nacional. A pauta foi debatida pela advogada e diretora do Instituto Declatra, Mírian Gonçalves e pela apresentadora Mariane Antunes. Os convidados desta semana foram os jornalistas e linguistas Gustavo Conde e Eliara Santana, que também é professora da PUC Minas.

Eliara, que desenvolveu uma tese acadêmica sobre o Jornal Nacional e a construção de narrativas, avaliou a forma como o principal telejornal da Rede Globo trabalha as notícias para criar um contexto na cabeça do telespectador. Segundo ela, há mudanças nos termos utilizados para a cobertura da crise econômica e também para falar de corrupção, dois dos principais temas da pauta da transmissora.

“No momento em que, em 2014, quando o Brasil tinha ótimos índices econômicos, baixíssimo desemprego, renda alta, inflação sobre o controle, estes temas estavam sempre no noticiário. A partir de 2015 em diante estas palavras vão desaparecendo e em 2018 e 2019 começam a aparecer termos como emprego sem carteira assinada no momento que o desemprego era galopante, com 13%. Um exemplo recente foi quando a juíza Gabriela Hardt reconheceu que não havia problema ou ilegalidade nas palestras do ex-presidente Lula. A matéria tem 1 minuto no Jornal Nacional e a imagem que fica de fundo é o velho gráfico vermelho e um cano todo carcomido por onde sai muito dinheiro. A nota, lida, diz uma coisa mas a imagem fica para dizer exatamente o contrário, recuperando a memória contrária do espectador”, analisou.

Um novo passo desta construção de narrativa envolve a liberação do acusado de tráfico, André do Rap. A polêmica teve início após a não renovação do pedido da sua prisão provisória, que resultou em sua liberdade a partir de uma decisão do ministro do STF, Marco Aurélio. “Ele cumpriu a lei feita pelo congresso. Ele não foi eleito para fazer lei, ele interpretou e não de forma equivocada. O que eu acho interessante é que não se tem notícia de quem mandou prender o traficante. Revirei e não achei o nome do juiz que mandou prender, nem o promotor que não pediu a recondução da prisão de 90 dias. A crítica para quem não pediu a renovação da prisão não foi feita. O que está por trás disso tudo é muito menos o escândalo desta soltura, mas a discussão em cima da segunda instância que vai cair com tudo em cima do ex-presidente Lula”, apontou a diretora do Instituto Declatra, Mírian Gonçalves.

O jornalista Gustavo Conde insistiu no papel do jornalismo neste processo, que deveria ser um instrumento para a formação crítica da sociedade por intermédio de produção de alta qualidade e que permita, ao receptor da notícia, a formação de uma conclusão. “A ideia do contraditório na prática do jornalismo é a mais importante. É dar possibilidade para o cidadão formular sua interpretação, não entregar uma pronta. Neste sentido é preciso rever as práticas para construir o debate público no Brasil, que hoje não funciona bem. São problemas como Fake News, ódio nas mídias sociais, mas passa pela forma jornalística. O grande antídoto para isso tudo é educação, ou seja, alta qualidade na informação”, completou.

Confira na íntegra o programa no vídeo abaixo e não se esqueça: O iDeclatra na Cultura é transmitido todas as terças e quintas-feiras, ao meio-dia, na Rádio Cultura de Curitiba. Você pode acompanhar o programa ao vivo pela AM 930, pelo site, pela Fan Page do Instituto Declatra ou da própria Rádio Cultura.

 

 

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