Como o Brasil está chegando na triste marca de 500 mil mortos pela Covid-19? Quais as estratégias ou falta delas para o enfrentamento à pandemia no País? Existe um cálculo, por parte do Governo Federal, em deixar que mortes ocorressem para priorizar a economia? Para debater estas e outras questões, o iDeclatra na Cultura desta terça-feira (15) recebeu a professora Rossana Reis, do departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Rossana coordenou o estudo “Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Normas Jurídicas de resposta à Covid-19”, que avaliou as ações de números da pandemia a partir de dados que constam no diário oficial. Uma linha do tempo preliminar do estudo, que vai de março de 2020 até maio de 2021, foi preparada para a CPI da Covid-19 no Senado Federal a partir dos atos normativos da união, de obstrução ao controle da pandemia por parte dos governos estaduais e municipais e a propaganda contra a saúde pública.

“Buscamos por palavras como covid-19 e pandemia. Há uma lista que está descrita no relatório. Selecionamos as normas e submetemos para este formulário. Quem emitiu, como emitiu, qual justificativa, menciona diretos à saúde. A partir disso criamos os primeiros dados quantitativos, por assim dizer. Quantas normas, quais ministérios mais emitiram, quantas das normas citam medidas sanitárias e assim por diante. Sempre perguntam o que mais chocou. Há um impacto ao ver as informações organizadas. O que mais impacta é o conjunto da obra”, comentou Rossana. Ao todo, foram analisadas 3.049 normas somente de 2020.

“É um desprezo pela vida muito grande. Nas falas públicas escutamos: vai morrer quem tem comorbidades, quem é velho…. Isso é como se essas vidas não fossem importantes. Está pensando nas pessoas em termos de custo. Teve uma assessora do Paulo Guedes (Solange Vieira) dizendo que a pandemia teria impacto positivo na previdência por conta da morte de idosos. É enlouquecedor acompanhar isso”, completou.

Para ela, há um evidente cálculo do Governo Federal em priorizar a economia e existiu uma estratégia para a livre circulação do Sars-Cov-2 em território brasileiro. “Alguém fez o cálculo, não sei quem, mas fez de que até um número X de mortos, melhor que morram do que a economia pare. É um cálculo econômico. Como eles mesmos falaram, todo mundo vai pegar e alguns vão morrer. Assim estamos chegando a 500 mil mortos. Na CPI vemos, nos depoimentos, sempre uma preocupação com preços e valores, menos com o que há de mais importante: a manutenção da vida”, enfatizou ao dizer que a ação principal deveria ter sido a restrição da circulação do vírus.

Ela analisou a situação com a advogada e diretora do Instituto, Mírian Gonçalves, com o advogado e também diretor do iDeclatra,Ricardo Mendonça e com a jornalista da Rádio Cultura, Mariane Antunes. O advogado criticou a falsa dicotomia entre vida e morte que foi reforçada pelo Governo Federal ao longo da pandemia. “Sempre incentivaram a narrativa de que mais gente morreria se a economia parasse do que com o vírus. Os países que levaram a sério, que não adotaram medidas farmacológicas e vacinaram rapidamente, estão retomando as condições econômicas. O mesmo aconteceu durante a Gripe Espanhola”, comparou.

Para a pesquisadora o prejuízo, contudo, vai além dos problemas econômicos ocasionados pela falta de ações e estratégias. “Se pensarmos a economia apenas pelo PIB já não faz sentido. Se pensarmos a médio e longo prazo o prejuízo é incalculável. Não tem lógica nenhuma. Por isso eu acho que é tão difícil para as pessoas, por mais que as coisas sejam evidentes, acreditar que é isso mesmo que está acontecendo. Podemos discutir sob várias perspectivas e não vamos encontrar justificativa para o comportamento do Governo Federal. Faz parte da nossa pesquisa tentar entender a lógica, pensamos que talvez tenha uma justificativa. Mas não tem”, comentou.

Na edição de hoje mais informações sobre a pesquisa, os impactos dos discursos de Jair Bolsonaro e outras autoridades do Governo Federal, a máquina de fake news, o impacto em outras áreas como a educação, o negacionismo e a negativa para compra de vacinas e muito mais você confere no vídeo abaixo. Confira o programa no vídeo abaixo e não se esqueça: O iDeclatra na Cultura é transmitido todas as terças e quintas-feiras, ao meio-dia, na Rádio Cultura de Curitiba. Você pode acompanhar o programa ao vivo pela AM 930, pelo site, pela Fan Page do Instituto Declatra ou da própria Rádio.

Foto de capa: CPI da Covid nesta terça-feira (15). Marcos Oliveira / Agência Senado / Fotos Públicas

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