Confira mais um artigo da série do Instituto em parceria com o Justificando.

Por Renata Nóbrega*

 

Descansar a vista

Até onde a vista alcança

De uma zona temperada

Até onde o sonho te leva

Na varanda suspensa

De São Sebastião

Intocada por ipoméias

Pés de manga, costela-de-adão

Eu me sentava pra ver

Aquele quadro vivo mudar

Vista para Ilhabela

Éramos a tela impressionista

Tropical, latino-americana

Litoral, início de janeiro

Tardes de veraneio, lume dos faróis

Anunciando a noite neon

(‘Varanda suspensa’, de Céu) 

 

As imagens de uma caminhada pequeno burguesa entre março e abril de 2021.

A zona sul de Recife (PE) num momento de reabertura de áreas de circulação, enquanto os números da COVID-19 no Brasil avizinham 4.000 mortes/dia.

Pelos ouvidos, a música Varanda suspensa e a cantora chamada Céu.

No deambular de corpos, a maior parte deles corre, caminha ou pedala sem máscaras ou com elas apenas sobre boca e/ou queixo. Isso, que fique claro, são nossos corpos burgueses e brancos que se exercitam e recebem a luz solar e celestial.

Céu segue cantando: “Descansar a vista até onde a vista alcança”.

Ao olhar em volta, esses andantes em meu ângulo de visada perdem lugar para outros corpos: dois homens de amarelo intenso, faixa de neon nas barras das mangas dos braços e das pernas, chapéus com proteção para raios solares, luvas e, aparentemente, máscaras.

Ambos possuem suas mãos em trabalho intenso de varrição, intercalado pelo movimento não menos intenso do arrastar de baldes grandes e amarelos sobre rodas – lixeiras. Os homens amarelo-manga limpam as sujeiras que a gama corpórea andante de cor branco gelo vai espalhando e espraiando naquela trajetória.

A moça Céu, em sua voz de captura e com seu nome celeste, segue derramando a melodia que acessa meus ouvidos, articula palavras que, há pouco, rearranjei em minha cabeça: “Pés de manga, costela-de-adão”.

Para matar a sede, um dos homens “pé de manga” bebe sua água numa garrafa azul reutilizada e, ao esvaziar o vasilhame, este permanece ao seu alcance, encaixado entre a alça e o corpo da lixeira por ele conduzida. Acredito que a coloca com a boca para baixo pela facilidade do encaixe, mas penso que assim também o faz para que, quando o lixo dos homens “costela de adão” for lançado à lixeira, o transbordo não chegue a atingir a parte da garrafa que irá à boca daquele trabalhador que tem a sede.

Minha jornada é retina e lágrima caída. “Varanda suspensa” é um lugar que confortavelmente habito. Apenas mais uma “costela de adão” que segue os fluxos de branco gelo de uma manhã de sol, mas que se tronou mais do que céu e mar.

Lembro-me das terras. Terra somos nós: “Cores de Frida Kahlo, cores”, invade meu pensamento essa frase cantada em outra voz brasileira feminina e melódica.

“Caminho pelo mundo e presto muita atenção em cores”.

Somos as cores – e porque não as flores – da Terra.

Somos um amálgama de corpos para o trabalho, que, de algum modo, segue alimentando o capital.

Desperto, mas o sonho segue, pois é a mesma paleta de cores de um mundo que, quando estou esperançada – e é no mais das vezes, remete minha vista aos tons multivariados da Wiphala.

Aquela bandeira – a Wiphala, atribuída historicamente aos povos primeiros, exprime, numa das muitas línguas dessa nossa ancestralidade, a junção entre a alegria e o sonho de conduzir uma bandeira comum a todas às existências.

A jornada de várias caminhadas que ainda faremos, primaveras de muitos povos, utopia fundante de muitas lutas e que me permite forjar as forças para novas e muitas outras caminhadas.

Bastantes vidas a vivermos para trabalharmos além da barbárie. Trabalhos que, muito além de salários e subserviência, sejam realizados coletivamente, desenvolvidos no principal meio expropriado: a terra.

Aliás, engrenagens humanas que não perpetuem o desenlace existencial com as terras e a Terra. Amálgamas vivos de cores que, ao destituírem as distinções promovidas pelo capital e perpetuadas pelo Estado na preservação deste mesmo capital, conformem as lutas em uma reintegração humana à natureza.

Em Grande Sertão: Veredas, diria Guimarães Rosa: “o irremediável extenso da vida”.

Minha caminhada segue na zona sul do Recife (PE), entre brancos “costela de adão” e amarelos “pés de manga”, mas a esperança, ao som de Céu, é a de vermos esse “quadro vivo mudar… Éramos a tela impressionista tropical, latino-americana…”

Céu cantando à terra que é viva e que não é mero meio de produção, muito pelo contrário, é a integração da própria existência. E que pede seu preço quando uma das espécies que compõe sua paleta insiste em distinguir-se não só dela, mas dentre os seus semelhantes, pintando cores estanques para os que varrem e os que sujam, chamando aos primeiros trabalhadores e aos segundos patrões.

Céu me faz reviver o jenipapo, minha mancha mongólica de nascença que, apesar de ter-se apagado com o tempo, manteve-se me permitindo várias conexões e me (re)fez para abraçar a terra do jeito que Damiana Kaiowá sente a terra e a ela se irmana.

Tekohá, na língua de Damiana, é “a Terra onde se é”.

O sol se põe e Céu canta “anunciando a noite neon”.

Lembro-me do documentário Apyka’i – Os Mortos tem voz, em que Damiana verbaliza esse neon ofuscante e que faz queimar nossos jenipapos de nascença: “Tekohá, eu nunca não vou estar aqui!”

Que nos encontremos nas nossas muitas lutas, por um trabalho além da barbárie, que assim o será quando não mais distinguirmos assalariados e assalariantes, que assim o será quando nossa integração for plena e os pés de manga estejam tão espalhados quanto as costelas de adão!

*Renata Nóbrega é Juíza do Trabalho em Pernambuco. Doutoranda em História. Membra da Associação Juízes para Democracia (AJD).

Foto de capa: PMRJ / Fotos Públicas

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